1-          Conte-nos como descobriu que tinha talento para produzir trajes de Dança do Ventre? Fale um pouco sobre sua trajetória.
Bem, isso é por partes... é um mix, que com o tempo, juntei tudo é resolvi começar a desenhar e confeccionar os trajes para dança do ventre.
Aos 8 anos de idade, entrei para uma escola de desenho artístico, que freqüentei por 4 anos.
Quando tinha 10 anos, minha mãe, que já tinha tido um atelier de trajes para festa,quando era solteira, começou a me ensinar um pouco de costura (que não é o meu forte), e ajudava ela a riscar moldes, algumas costuras de mãos, etc.
Quando fui usar pela primeira vez a máquina de costura, minha mãe me disse: “  Cuidado ao passar com os dedos ao lado do pezinho de costura, pois uma vez meu dedo foi costurado junto passando por baixo do pezinho”. Aquilo virou o bicho papão, não quis nem saber de aprender a costurar na máquina.
Depois ela começou a ensinar a bordar com linha a mão... eu aprendi mas não achava muita graça em bordar panos de prato... deve ser porque não tinha brilho (rs).
Como desde criança adorava Carnaval, que naquela época era uma delícia curtir as matinês do Clube Atlético Santista, e lá tinha concursos de melhor fantasia. Pronto... descobri as lantejoulas!!!!
Comecei a bordar minhas fantasias, e aos 15 anos comecei a fazer algumas para vender.
Durante algum tempo, com a faculdade, parei de bordar, pois não dava tempo.
As vezes bordava uma blusinha, ou fazia algumas bijuterias para eu mesma.
Quando comecei a estudar dança do ventre em 2001, comecei a bordar a minha própria roupa... mas eu trabalhava muito, era viúva, tinha um filho de 5 anos na época, e ainda fazia pós graduação ‘a noite.
Em 2002 me converti ao Islam. Comecei a usar o véu, mas não deixei a dança do ventre.
Como eu estudava muito online, me deparava com muitos sites árabes de música, dança, cultura egípcia... e era meu passatempo nas horas vagas, navegar pela net, visitar muitos sites, fazer contatos nos países árabes para aprender sobre a religião e também sobre a cultura.
Fiquei 5 anos casada com um egípcio, que me ensinou sobre música árabe, cultura árabe, diferença entre das músicas e costumes do Egito, do Líbano, do Golfo... Assistia algumas novelas e filmes egípcios, onde contava histórias de bailarinas, dos night clubs (cabarés)... Ouvia os comentários dele sobre as apresentações que assistíamos nos eventos, muitas vezes as dançarinas dançando Khalige (que é uma dança típica do Golfo) com música libanesa, ou ver um grupo de dabke (que é típico libanês) com uma música egípcia... verdadeiros micos para quem entende do assunto.
Voltando aos trajes... com a abertura da nossa loja “Bazar Egípcio”, comecei a comprar trajes prontos para revender, mas as clientes com o passar do tempo, começaram a pedir para eu trazer modelos diferentes, então eu comecei a desenhar os modelos e os riscos de bordados, escolher os tecidos, as pedrarias... e montei minha equipe de costura e bordado e fiz alguns cursos de bordado em pedraria.
Daí nasceu o Atelier Yasmin Hassanein. 
  2-          Como é seu processo criativo? Você costuma se inspirar em pessoas, tipos físicos, rostos. O que te inspira no momento de criar as coleções?
  Vou tentar explicar, mas é meio maluco (rs)... típico de eu mesma...
Eu me inspiro muito nos trajes das estilistas egípcias, vejo os estilos de bordado, de cores, estampas, modelos de saias...
Sempre faço um “brain storm” (tempestade de idéias) de fotos de bordados, desenhos arabesques, fotos de flores, revistas, catálogo de jóias... e só sento para desenhar ou riscar os bordados quando sinto aquela energia vindo, minha mente parece um vulcãozinho de idéias...nem consigo passar pro papel tudo o que passa na mente...
Desisti de desenhar primeiro num molde para depois passar para o traje... eu mudo tudo... fico brava comigo mesma... sou péssima para cópias... agora risco no próprio tecido, conforme a inspiração.
Já perdi muitas clientes porque me pediram para copiar algum traje ou fazer igual ao da foto de alguém, pois não consigo.
Em compensação, ganhei algumas que adoraram meu estilo, a exclusividade dos trajes, já que não consigo copiar.
Por mais que alguns sejam parecidos, os bordados são diferentes.
Detesto que me interrompam quando estou riscando, por isso tento trabalhar de madrugada.
Muitas vezes tenho que levantar da cama e desenhar pq minha mente parece um computador passando informações.
  3-          Alguns de seus trajes tem temática que remetem ao Egito, Nilo, Serpentes. Você acha importante conhecer a cultura egípcia para criar não só trajes, mas também coreografias? Você também pratica a dança do ventre ou apenas aprecia a nossa arte?
Como disse antes, amo dança do ventre, comecei a praticar em 2001, é uma dança que faz desabrochar a feminilidade, a sensualidade da mulher... depois que começamos a fazer dança do ventre, temos mais vontade de nos arrumar, maquilar, criar nosso estilo, a dança do ventre aumenta a nossa auto estima...
Em relação a aprender a cultura egípcia, é interessante, mas aprender com as bailarinas antigas é muito mais importante. Já vi professoras, que tem escola, que não sabem quem é Souhair Zaki, Sâmia Gamal, Fifi Abdo, Tahia Karioka, Nelly... as vezes só conhecem a Dina... nem conhecem os trabalhos de Raqia Hassan, Mahmoud Reda,   incluindo os mais conteporâneos: Dandash, Randa Kamel, Yousry Sharif, Nourhan Sharif, entre outros.
O centro cultural árabe é no Egito... na minha humilde opinião, as dançarinas egípcias são nossas melhores referências para aprendizagem.
Fazendo uma analogia, dizem que nascemos com o samba no pé... digo o mesmo das egípcias em relação a dança do ventre.
Vejo muitas bailarinas, que dançam lindamente, mas tirando alguns shimmies e básicos egípcios, o restante é ballet, jazz... mas não é dança do ventre.
Há muitas informações erradas ou ignoradas por muitas professoras e bailarinas, principalmente nas danças folclóricas, pois dançar saidi com música libanesa, é terrível.
Hoje com a Internet e a globalização, fica muito mais fácil de fazer pesquisas de músicas, de folclore, coreografias... Isso de dizer que foi uma mulher árabe que me ensinou, então é verídico, as vezes é errado. Muitos “árabes” já nasceram no Brasil e alguns estão no Brasil desde criança.
É muito melhor fazer pesquisas na fonte ou aprender com os mestres egípcios.
A moda de dança do ventre, as músicas árabes, e tudo mais relacionado a shows, filmes... são lançados no Egito.
O Egito é a Hollywood Árabe.
  4-          Há um processo de pesquisa sobre a dança, no sentido de criar modelos que ajudem a valorizar o movimento ou produzir encanto? (por exemplo: mangas, babados, saias com cortes diferentes, etc)
Cada bailarina, por causa do seu corpo ou estilo, tem suas preferências para escolher um traje.
Eu, pessoalmente, gosto de desenhar os trajes estilo egípcio moderno, com transparências em cortes diferentes (onde uso a 2ª pele), alças diferentes, saias justas com nesgas na parte de trás para dar movimento, também uso saias com nesgas nas lateriais e atrás para clientes que gostam de uma saia mais rodada e muito bordado sempre!!! Com o tempo, nossas inspirações, criações de desenhos, bordados e materiais também vão mudando. Quando vejo o que criei anos atrás, até fico desanimada, me perguntando...nossa, eu poderia ter feito melhor!!!!

  5-          Há algum estilista ou figurinista que você se inspire para criar suas coleções? Quem você admira no mundo da moda (não só no mundo da belly dance).
Se eu disser para você que nem sei o que está na moda nas vitrines das lojas, você vai acreditar!!!
Durante anos usei as abayas tradicionais de mulçumana, até que comecei a confeccionar minhas próprias abayas em musseline, usar pantalonas com tecido duplo e fendas... criei minha própria moda. E sempre curti muito usar o hijab, o véu islâmico, nunca usei por obrigação e sim por vontade própria.
Desde dezembro parei de usar o hijab, por diversas razões, mas isso é uma outra história, o que não me tornou menos mulçumana.
Gosto muito das estilistas egípcias para me basear, mas não sigo nenhuma, as vezes chego a achar horrível o que elas fazem. Culturas diferentes, gostos diferentes.
  6-          Seus trajes são impecáveis e com acabamento perfeito. Conte como é o processo de produção e com que estrutura seu ateliê funciona (numero de costureiras, bordadeiras) conte-nos os bastidores desde o momento do desenho até a confecção pronta.
Agradeço os elogios, mas ainda tenho muito a fazer para deixar os trajes 100% do jeito que devem ser.
Adoro escolher os tecidos, é difícil encontrar os mesmos do Egito aqui no Brasil, o que os egípcios chamam de lycra brilho. Mas gosto de tecidos strech com brilho, alguns chamam de vinil strech, mas cada importador coloca um nome diferente.
Eu desenho vários modelos, conforme a imaginação, depois eu seleciono os que realmente gostei. Tento dar um melhor acabamento ao desenho, fazer alguma modificação.
Faço o molde e vão para a costura.
Quando voltam tento checar todo o trabalho da costureira, alguns tem que ser refeitos ou fazer alguns ajustes.
Quando a costura está ok, sento para riscar o traje, as vezes fico olhando, e nada... se eu riscar (desenhar os bordados no tecido) e não gostar, eu lavo e retiro todo os riscos. para isso uso caneta gel.
Quando olho o meu trabalho e acho que está pronto para iniciar o bordado, faço uma enorme bagunça colocando os paetês, vidrilhos, miçangas, pérolas, cristais no tecido, para ver o efeito visual, se combina, se vai ter brilho.
Passo tudo para o papel, como uma receita para a bordadeira. Por exemplo: neste desenho, o contorno é feito com ponto torçaide de vidrilhos prateados, fazer uma 2º contorno interno com ponto casado de paetês e miçangas vermelhas, preencher com ponto escamado de paetê vermelho. Se o desenho é degradê, eu pinto o desenho (no papel) como deve ser feito o bordado. Tudo é passado por escrito e desenhado, inclusive franjas, contornos, barras...
Depois é enviado para a bordadeira. Alguns trajes demoram até 12 dias para serem bordados.
Depois eu confiro com o “croqui” (a receita) que eu fiz, vejo se algo precisa ser refeito, estando tudo OK, fotografo e coloco no site ou aviso a cliente que encomendou o traje.
  7-          Cite, se for possível, uma bailarina que você mais gostou de ver usando um traje seu e, se há alguma bailarina que você sonha vestir um dia.
  Ver as fotos e vídeos da Vanda Fenner, minha amiga e cliente, adoro desenhar para ela, ela ama tudo que eu faço para ela, e me deixa muitíssimo feliz, ver que atendi ou superei as expectativas dela em relação ao traje confeccionado.
Ver a Mônica Fernandes, que foi minha professora, num evento dançando com um traje meu, também me deixou emocionada.
Ah... ver a Clarice Bonine, a filha Carol Bonini (uma fofa), as duas com os trajes iguais e o filho com um traje de dabke dançando juntos, também foi maravilhoso.
Tenho outras também que adorei ver os vídeos e as fotos, pois raramente saio, e se estou em algum evento, estou no estande trabalhando, entre elas estão Salima Zahra, o grupo Raks Zahra, Hayra Fuad...
  Meu sonho: Randa kamel, adoraria vê-la num traje assinado por mim... Ao conhecê-la num evento em 2009, eu tremia ao abraçá-la para tirar uma foto, e soltei um “ ana bahebik awy” (eu te amo muito) que até o Tony Mousayek achou graça, depois ela veio até meu estande, arranhei um pouco meu árabe com ela.
    8-          Yasmin, sua Coleção 2010 está incrível. De mais detalhes e informações sobre como as pessoas podem adquirir seus trajes. Obrigada pela entrevista!
  Obrigada pelos elogios, fico feliz de saber que você gostou da nova coleção, espero sempre melhorar para deixar vocês mais lindas do que já são.
Agradeço pela entrevista, já que sou toda emoção, estou me sentindo uma superstar por estar aqui sendo entrevistada por você. Shukran giddan! (muito obrigada)
Atendimento com horário marcado
tel.: 55 11 4332.6528                    cel.: 55 11 9846.5630
msn :  yasmin_10000@hotmail.com
site:  www.atelierbellydance.com 
BLOG:  www.bazaregipcio.blogspot.com
 
 




